Realizou-se ontem, no Porto uma Sessão Pública sobre o tema “Reforçar o investimento público, aumentar a produção nacional”, integrando um conjunto de acções que o PCP tem em curso com vista ao esclarecimento e mobilização para a luta pelo emprego, pelos direitos, pela aumento da produção nacional, pela soberania nacional, pela alternativa patriótica e de esquerda.
O PCP realizou ontem em todo o País, um conjunto de acções de esclarecimento com o tema «Não às chantagens da UE – não às sanções», promovendo o contacto com trabalhadores e populações, denunciando a ingerência e afirmando a necessidade de uma política de defesa do povo e do País. Na acção realizada junto à estação da Trindade, no Porto, Jaime Toga, da Comissão Política do Comité Central do PCP, destacou que Portugal não pode tolerar mais agressões à sua soberania, aos direitos dos portugueses e à democracia, afirmando que é preciso rejeitar as sanções e quaisquer outras imposições resultantes do Euro e da União Europeia que procurem condicionar opções soberanas do Estado Português.
Seminário “A União Bancária - Um passo mais na integração capitalista europeia”
A União Bancária
INTRODUÇÃO Camaradas e amigos, estamos aqui reunidos neste seminário para debater e aprofundar a União Bancária, melhorando o nosso conhecimento sobre estas matérias para podermos mobilizar melhor as populações e os trabalhadores. Em 2008, o mundo assiste à maior crise financeira cá sua história recente. Esta crise tem raízes no processo de liberalização da economia encetado nos anos oitenta. Com esta liberalização, privatizaram-se as grandes instituições financeiras públicas criadas no pós guerra. Desregulamentou-se por completo as atividades financeira e os movimentos de capitais. Criaram-se nesta base os bancos demasiados grandes para falir. Nasce assim o chamado risco sistémico. Quando rebenta a bolha especulativa em 2007, a crise económica e financeira que se lhe segue irá impor custos astronómicos aos Estados numa operação sem precedentes destinada a “salvar” o sistema financeiro. Entre 2008 e 2012, foram gastos pelos estados nacionais 1,5 triliões de euros (são valores da Comissão Europeia), equivalente a cerca de 13% do PIB combinado dos Estados membros da UE. É na sequência desta profunda crise económica e financeira que abalou a economia mundial que os Chefes de Estado e de Governo da União Europeia decidiram em Junho de 2012 criar a “União Bancária”. A União Bancária foi assim criada com o fundamento simpático de “controlar” os bancos e de “evitar” que, na próxima crise, sejam os contribuintes europeus a ter que pagar a fatura. Nada mais falso, como iremos ver adiante. A União Bancária é constituída por três pilares: o mecanismo único de supervisão, o mecanismo único de resolução e o sistema de garantia dos depósitos. Os dois primeiros encontram-se já em funcionamento ao contrário do terceiro que conta neste momento, com as reticências do governo alemão.
O Sistema de Garantia dos Depósitos Não deixa de ser significativo que seja este terceiro pilar, o único que teoricamente defenderia, de forma direta o interesse dos depositantes, a marcar passo. O Sistema de garantia dos depósitos visa criar um esquema mutual à escala europeia destinada a garantir os depósitos até 100 mil euros. Desta forma, e segundo os teóricos da União Bancária, a garantia sai reforçada porque não depende da capacidade solvente do estado nacional do depositante. Ou seja, retira-se soberania monetária aos estados nacionais, enfraquecendo a sua capacidade de controlar o sistema financeiro, para depois impor um sistema de garantia supranacional com o argumento segundo o qual os estados nacionais não apresentam condições para dar esta segurança aos depositantes. A pergunta que se impõe, designadamente aos muitos partidos ditos de esquerda que anseiam por este pilar da União Bancária, é se não seria mais ajuizado mudar de rumo e voltar a reforçar os bancos centrais nacionais por forma a evitar estarmos mais uma vez dependentes do BCE para garantir os nossos depósitos. Ou alguém acredita que o eventual accionamento desta garantia será concedido sem condições? Como dissemos, estes sistemas representa o pilar que falta à União Bancária. Perante a intransigência alemã que recusa liminarmente contribuir para mais um fundo que possa beneficiar outros países, a Comissão Europeia apresentou uma proposta de constituição de um resseguro de depósitos construído à volta de uma complexa teia de produtos financeiros ainda em discussão. Veremos como evoluem as negociações.
O Mecanismo Único de Supervisão A partir de Novembro de 2014, o BCE ficou responsável direto pela supervisão de 130 dos maiores bancos europeus, representando cerca de 85% do sistema bancário europeu. No que diz respeito a Portugal, os 4 maiores bancos portugueses (CGD, BCP, BPI e Novo Banco, ex. BES) ficam sob supervisão direta do BCE. O BCE também publicou uma lista de instituições ditas "menos significativas" onde se encontra o BANIF bem como todas as restantes instituições de crédito nacionais que continuam a ser supervisionados pelas autoridades nacionais competentes em representação do BCE. Contudo, o BCE pode decidir, em qualquer momento, exercer a supervisão direta a fim de assegurar a aplicação consistente de elevados padrões de supervisão. Falar de supervisão passa em primeiro lugar por reconhecer o óbvio, ou seja, que a supervisão falhou sucessivamente no passado. Em 2014 e antes de assumir a supervisão única, o BCE promoveu os famosos testes de “stress” nos 130 maiores bancos europeus. Ora, num dos dois testes - a avaliação dos ativos (AQR) que começou em Novembro de 2013 e se prolongou até Outubro de 2014 - nada se descobriu relativamente ao BES que faliu em Agosto de 2014. Já no que toca ao BANIF, o banco declarava em Setembro de 2015 que tinha capital e reservas de 675 milhões de euros, permitindo-lhe apresentar um rácio de capital CET1 de 8,5% e um rácio de solvabilidade de 9,5%. Ou seja, os dois rácios de capital do Banif situavam-se bem acima do mínimo legal exigível pela supervisão europeia. O resultado foi o que está à vista. Alimentar esta ideia segundo a qual o sistema financeiro pode ser regulado e supervisionado, evitando assim uma gestão demasiado arriscada, representa um enorme embuste. Os factos estão aí para refutar qualquer possibilidade de controlar seja o que for. Apontámos já vários exemplos. Mas se olharmos para outros fenómenos com os bancos sombras, ou as constantemente renovadas técnicos de contabilidade criativa, onde se confunde deliberadamente dívida e capital, facilmente se compreende que o sistema financeiro dificilmente poderia ser controlado e muitos menos através deste mecanismo único de supervisão que concentra a atividade de supervisão no BCE, afastando-se do terreno que pretende controlar. Naturalmente que o propósito do mecanismo único de supervisão é, acima de tudo, obstaculizar ainda mais todo e qualquer controlo público por parte dos estados nacionais sobre os respetivos sistemas financeiros. Ao centralizar-se a supervisão no plano supranacional, os Estados perdem mais um importante instrumento político vendo ainda mais limitada a sua soberania num sector vital para qualquer economia. Vejamos por exemplo o caso da CGD. Imaginemos um governo progressista que queira colocar a CGD ao serviço do desenvolvimento do país, financiando as PMEs e o sector produtivo. Estes empréstimos são de maior risco e irão degradar os rácios de solvabilidade que são calculados de acordo com as regras da supervisão, ao ponto de tornar inviável tal política. Hoje discute-se a limitação a impor aos bancos na sua exposição às dívidas soberanas. Não é por acaso que a Comissão Europeia afirma em resposta a uma pergunta do PCP, que é indiferente à propriedade pública ou privada da banca, desde que siga as regras da concorrência e da União Bancária.
O Mecanismo Único de Resolução O Mecanismo Único de Resolução (MUR) é apresentado com o objetivo de implementar uma gestão mais eficaz da chamada resolução bancária através de um Mecanismo de Único de Resolução (MUR) articulado em torno de um Comité Único de Resolução (CUR) e de um Fundo Único de Resolução (FUR). Assim, se um banco entra em falência, a lógica de “bail out” que prevaleceu até aqui (capitais de externos ao banco falido, normalmente públicos, recapitalizam o banco) é, teoricamente, substituída pelo “bail in” (são os próprios acionistas e credores do banco a pagar os prejuízos), isto claro segundo a propaganda que acompanha o projeto da União Bancária. O Fundo Único de Resolução constituído a partir das contribuições dos bancos começa a ser criado em Janeiro de 2016 e pretende-se que esteja plenamente constituído em 2024 com um valor de 55 mil milhões de euros, correspondente a cerca de 1% dos depósitos cobertos. As contribuições de cada banco são ponderadas pelo risco dos seus ativos que são avaliados periodicamente pelo mecanismo de supervisão. Em toda a propaganda destinada a vender o pacote da União Bancária, usa-se até à exaustão a ideia de que os contribuintes deixarão de ter de pagar as operações de financiamento do sistema financeiro. Mas, uma coisa é a propaganda e os discursos, e outra a realidade. Os documentos legislativos (aqueles que realmente contam) são muito menos contundentes. As expressões “os contribuintes não serão novamente chamados a pagar”, ou “para que, no futuro, os contribuintes não tenham de pagar a fatura dos erros cometidos pelos bancos” são substituídos por formulações bem mais vagas e menos vinculativas de tipo “com custos mínimos para os contribuintes e para a economia real” ou “um regime de resolução eficaz deverá minimizar os custos a suportar pelos contribuintes”, etc.. De acordo com os regulamento, havendo um banco em dificuldade, das duas, uma, ou não comporta risco sistémico e entra em falência de acordo com os procedimentos legais de insolvência, ou apresenta risco sistémico e neste caso, sob decisão do CUR entra em ação o mecanismo único de resolução. Em termos concretos, o Fundo Único de Resolução entra em ação a partir do momento em que as perdas dos acionistas e outros credores atinjam o nível mínimo de 8% do ativo. Contudo, o contributo do fundo de resolução não pode ir para além dos 5% do ativo. Finalmente, e tal como faz questão de sublinhar o regulamento, nada impede os governos de ir para além destes limites no que toca à chamada recapitalização dos bancos. Contudo, e como facilmente se comprova, este mecanismo não evita o recurso a fundos públicos para pagar os prejuízos da banca e muito menos resolve a questão de fundo das entidades demasiado grandes para falir (“too big to fail”). O fundo de resolução representa apenas 3,5% dos fundos públicos aplicados durante a última crise, entre 2008 e 2012. Por outro lado, os próprios limites da aplicação do fundo (os tais 5%) são claramente insuficientes, mesmo considerando as perdas sofridas pelos acionistas. Assim foi no caso do Banif onde a intervenção do fundo de resolução (alimentado com fundos públicos) representou 17,6% do seu balanço. Para ter uma ideia das escassez deste fundo, compare-se o valor das imparidades registadas só na banca portuguesa, avaliadas em 40 mil milhões, com o valor no fundo de resolução, 55 mil milhões, destinada a cobrir toda a banca da zona euro. Este mecanismo de resolução não tem manifestamente os meios necessários para garantir um mínimo de eficácia. Compreendemos que assim seja, porque um fundo mais generoso poderia levar a banca a aumenta o risco na sua atividade. Por isso é que defendemos soluções que ataquem o problema na raiz e não apenas meros paliativos. É o problema reside na estátua do sistema público, e na existência das instituições demasiados grandes para falir. E a solução passa por medidas de fundo assentes na separação entre banca de retalho e investimento, e acima de tudo pelo controlo público do sistema financeiro.
Conclusão A união bancária representa o maior passo na integração capitalista da Europa desde a criação do Euro. Concentra no BCE um conjunto de poderes e competências profundamente conflitantes que levantam mais uma vez a questão da sua legitimidade democrática. Como fica claro com contas simples, a União Bancária, com os seus três pilares, não resolve nenhum dos problemas que estão e estiveram na base da actual crise econômica e financeira. No fundamental pretende apenas criar um paliativo que não tem outro propósito senão criar a ilusão de que alguma coisa está a ser feita para que tudo permaneça na mesma. Mas debaixo desta manobra de diversão, a união bancária representa um poderoso mecanismo de gestão de um processo em curso de concentração do setor financeiro, retirando aos Estados Nacionais qualquer possibilidade de controlo e qualquer veleidade em decidir do seu modelo de desenvolvimento. Ou seja, assegura um mecanismo que garante ao grande capital estabilidade, mantendo a canalização de fundos públicos ao serviço dos seus interesses e conveniências. As instituições "demasiado grandes para falir" continuam intocáveis, e, consequentemente os Estados, ou seja os trabalhadores e o povo, continuarão a ser chamados a cobrir os prejuízos do grande capital financeiro aquando do rebentamento da próxima bolha especulativa que acontecerá mais tarde ou mais cedo. Tal como o PCP defende, a importância do sistema financeiro e a experiência do presente e do passado recente exigem um ruptura com estas políticas e implicam o controlo público da banca e do sistema financeiro. Esta é um condição essencial para garantir que os recursos financeiros da nossa economia sejam colocados ao serviço do desenvolvimento do país e da melhoria das condições de vida do povo e dos trabalhadores.
Seminário “A União Bancária - Um passo mais na integração capitalista europeia”
Boa tarde. Caros camaradas, amigos e estimados convidados, Esta tarde temos estado a discutir o setor bancário, nomeadamente as implicações neste fruto da criação da União Bancária. Talvez repita algumas ideias já aqui trazidas, mas permitam-me voltar ao projeto da união bancária antes de cingir a minha intervenção à supervisão bancária.
No Relatório Anual do BCE sobre as atividades de supervisão, publicado em março deste ano, Mario Draghi afirmou – passo a citar -, “ (...) a União Bancária não é um objetivo em si mesmo, mas um passo fundamental para a consecução de um mercado único europeu de serviços bancários e financeiros” fim de citação. No mesmo relatório, o presidente do BCE afirmou taxativamente que só poderá haver moeda única se existir um sistema bancário único.
Pois é, tal como noutros momentos da história da integração capitalista europeia, para salvar um sanguessuga (sanguessuga da soberania, da independência e da liberdade para o nosso povo decidir sobre o seu próprio destino), criamos uma outra.
Obviamente que, antes de se assumirem tão explicitamente, inventam desculpas esfarrapadas e procuram bodes expiatórios: foi assim com o mercado único de bens e serviços, foi assim com o euro e, mais recentemente, com a união dos mercados de capitais.
As desculpas arranjadas para a criação da União Bancária foram, claro está, a crise financeira 2007/2008 e a chamada crise das dívidas soberanas, as quais revelaram a opacidade do sistema financeiro, a dispersão (segundo eles) das estruturas de supervisão e desequilíbrios macroeconómicos.
Deste modo, a supervisão bancária (sob a forma do mecanismo único de supervisão) foi a prioridade da União Bancária.
Este mecanismo é constituído pelo BCE e pelas Autoridades Nacionais Competentes (no nosso caso, o Banco de Portugal) dos Estados-membros participantes.
Anualmente, a supervisão bancária do BCE adota um plano de atividades da supervisão para as instituições que supervisiona. Este plano define, para cada instituição significativa, as principais atividades de supervisão que serão realizadas para acompanhar os riscos e abordar as deficiências. Identifica as instituições que deverão ser objeto de supervisão reforçada. O plano de atividades de supervisão de uma instituição significativa abrange atividades de supervisão permanente, inspeções no local e análise dos modelos internos.
Importa mencionar que, relativamente às instituições significativas, o BCE desempenha um leque bastante alargado de funções: produção de regulamentação, orientações ou instruções gerais às Autoridades Nacionais de Competentes que desempenham a tarefa da supervisão diária e adotar as decisões políticas. Ademais, sempre que se revelar necessário o BCE pode atuar individualmente e pôr em prática todos os seus poderes sobre os bancos, com o intuito de assegurar a aplicação consistente dos padrões de supervisão.
Poderíamos, certamente, continuar a dissecar a supervisão bancária europeia e os seus inúmeros regulamentos, que parecem (ou assim nos levam a crer) funcionar como um bunker para refugiar os bancos e proteger os povos de novas crises financeiras. Porém, e apesar de tal exercício se revelar muito entusiasmante, não teremos tempo hoje para o fazer.
Mas, pergunto eu e possivelmente vós também, se o Sistema Europeu de Supervisão Financeira existe desde 2011 e o Mecanismo Único de Supervisão se encontra operacional desde novembro de 2014, como se explicam os casos do BES e do Banif? Mais, onde estavam o BCE e o Banco de Portugal? Que foi aconteceu à supervisão, prioridade máxima?
Bom, o BCE sacudiu à água do pacote e prontamente apontou o dedo aos Estados-membros e às autoridades nacionais. Aqui, que todos nos ouvem (ou não porque a comunicação social não achou importante comparecer ou achou que a ausência de estrelas televisivas não justificava uma deslocação a este belo local) é normalmente isto que as chamadas instituições europeias fazem. Aliás, a suposta incompetência e laxismo dos Estados-membros serve frequentemente para retirar soberania e poder de decisão aos povos dos Estados-membros.
O Relatório Anual das atividades de supervisão referente ao ano de 2015, apontou o dedo às faculdades e opções nacionais (que são disposições flexíveis de aplicação da regulamentação concedidas aos Estados-membros) e à aplicação inconsistente das disposições da legislação existente. Afirmam que a heterogeneidade afeta a comparabilidade dos rácios reportados e cria incerteza quando às reais posições de capital e de liquidez das instituições de crédito, afetando a coerência das decisões de supervisão. A solução deles é fácil de adivinhar: harmonizar e integrar a nível o sistema bancário ao máximo, de modo a alcançar uma supervisão bancária completamente supranacional.
O Banco de Portugal também diz que não se lembra, que não sabe, que não viu. Será? Não acreditamos.
Infelizmente, o preço a pagar é alto, e muito! Mas sabemos que não é pago pelos banqueiros. No imediato, mais exigências financeiras ao Estado (que, desta vez, esperemos e lutaremos para que não vá buscar ao bolso dos trabalhadores). Mais a médio prazo, a exigência será feita à soberania e à independência dos Estados-membros.
Não tenhamos ilusões. Mais regulamentação, mais harmonização e maior aprofundamento do mercado único não resolverá o problema. Porquê? Porque o a ganância dos banqueiros e da alta finança não cessará. Eles também o sabem, até porque o que eles querem na verdade é concluir o seu projeto de integração capitalista europeia: profundamente federalista e neoliberal.
Para nós a solução passa somente pelo controlo público da banca.