Algumas notas sobre um ser humano ímpar, Óscar Lopes *, por José António Gomes

joseantoniogomesO ano: 1971. Lugar: o velho Liceu de Alexandre Herculano, no Porto. Recordar a primeira vez que ouvi o nome de Óscar Lopes (1917-2013) obriga-me a este recuo no tempo, começando por evocar duas figuras que o admiravam. Luís Amaro de Oliveira, metodólogo e orientador de estágios, autor de publicações didácticas e ensaísticas, companheiro de José Régio, Manoel de Oliveira, Agustina Bessa-Luís e outros nas tertúlias estivais do Diana Bar, na Póvoa de Varzim; e Agostinho Gomes, ficcionista e poeta, amigo e correspondente de Ferreira de Castro.
Ambos estes professores de Português me fizeram ouvir, pela primeira vez, o nome de Óscar Lopes. Teria, pois, entre quinze e dezasseis anos e descobria, com paixão adolescente, a poesia e a prosa portuguesas medievais, o teatro de Gil Vicente, a Menina e Moça de Bernardim, os poemas de Sá de Miranda e António Ferreira, a lírica de Camões, os cronistas da gesta portuguesa, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto… Num tempo em que não era fácil nem cómodo contrapor, às medíocres histórias da literatura habitualmente aconselhadas, a monumental História da Literatura Portuguesa de Óscar Lopes e António José Saraiva, aqueles dois professores afirmavam a sua diferença. E recomendavam a obra. O deslumbramento começou então. Pois jamais texto algum assim iluminara, como o de Óscar Lopes e Saraiva o fazia, o permanente diálogo da Literatura e de outras artes com a História, a Economia e a vida social, ou com a Filosofia e até as chamadas Ciências exactas. Sem nunca ter tido a sorte de frequentar aulas do autor de Entre Fialho e Nemésio (embora tenha escutado, no curso dos anos, numerosas palestras e conferências suas), o adolescente que eu era tornava-se um leitor de Óscar Lopes, de algum modo também um aluno, por via do que o seu saber escrito me ensinava.

Só em 1974, nos dias que se sucederam ao 25 de Abril, conheci o homem, a cuja erudição, a cuja exemplaridade cívica nenhum frequentador das famosas RGA (Reuniões Gerais de Alunos), fosse qual fosse a ideologia perfilhada, ficava indiferente. A memória que guardo é a de um pacífico mas vibrante plenário (não falhava um) em que os estudantes de Letras da Universidade do Porto (FLUP) acolheram a proposta de que Óscar Lopes fosse integrado na Faculdade e assumisse a presidência do Conselho Directivo. Momento aureolado por uma aclamação, no salão nobre do actual Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, que era, na época, o edifício central da FLUP. Não foram tempos fáceis. O clima de repressão que o fascismo instalara antes na universidade («bufos» e PIDE nas faculdades, interdição de associações estudantis, suspensões, fim dos «adiamentos» militares e incorporação no exército colonial, prisão de estudantes e até assassinatos, como o de Ribeiro dos Santos, em 1972, em Lisboa), esse clima dera lugar, em plena Revolução, a uma imparável contestação e reivindicação de direitos em liberdade. Com a sua aura de antifascista, de professor e intelectual perseguido e preso pela ditadura salazarista, Óscar Lopes revelou-se, durante esse período, o presidente do Conselho Directivo ideal e necessário. Alguém com invejável capacidade de trabalho, que sabia escutar os estudantes (como aliás me escutou a mim, enquanto um dos representantes dos alunos de Filologia Germânica – pois Óscar gostava sempre de escutar os outros), os seus anseios, a argumentação que traziam. Mas alguém que nunca esgrimiu o seu passado para legitimar uma autoridade que, no entanto, era reconhecida por todos; uma voz que valorizava a intervenção mas que também contra-argumentava serenamente. E desse modo chamava à razão. Desempenhou assim papel decisivo na contenção dos muitos oportunismos e radicalismos de ocasião, salvaguardando a dignidade da instituição universitária e a relevância da sua função social como espaço de investigação, ensino e construção de saberes. E à universidade daria o seu melhor, nos anos subsequentes, quer como professor e investigador em Linguística (o seu notável trabalho, em Portugal, fora pioneiro), quer como orientador de investigadores, numa atitude sempre generosa, de infatigável partilha de saberes, da qual os seus discípulos e colegas de então continuam a dar emocionado testemunho.

Cresci e consegui colocação como professor de Português e Literatura Portuguesa enquanto ia terminando o curso (na época, 1975-76, havia falta de docentes). Mais tarde, tornei-me formador de professores e acabei a ensinar numa instituição do Ensino Superior público. E o pouco que eventualmente saiba sobre Literatura Portuguesa, ou mesmo sobre a infância na Literatura, devo-o sobretudo aos ensaios de Óscar Lopes. Seria ocioso referi-los todos (a sua bibliografia é vastíssima), mas recordo, de passagem, títulos tão fundamentais como Ler e Depois, Modo de Ler, Cifras do Tempo, A Busca de Sentido, os dois volumes de Entre Fialho e Nemésio, entre muitos outros, já para não falar de estudos mais dilatados sobre certos autores (como Antero ou Jaime Cortesão) ou ainda da História Ilustrada das Grandes Literaturas – VIII – Literatura Portuguesa (editada em 1973 e cuja autoria é sobretudo de Óscar Lopes, contendo alguns textos pouco lembrados sobre escritores oitocentistas e novecentistas menos conhecidos). Livros que me ensinaram a ler e a contextualizar, histórica e filosoficamente, obras de períodos muito diversos. Livros em que o crítico, apoiando-se invariavelmente na materialidade linguística dos textos, e em permanente busca de sentido, dá sempre a ver (apenas um de muitos aspectos a realçar) que nenhum texto literário, nenhum texto de crítica, de história ou teoria literárias deixa de ser atravessado pela historicidade e pela ideologia. Coisa óbvia, dirão alguns, mas que tende insidiosamente a ser desvalorizada (ou «esquecida»), em nome da autonomia do literário, numa atitude também ela naturalmente ideológica. Sublinhando ainda duas linhas muito particulares, entre tantas, não resisto a destacar aqui os seus estudos sobre a infância na Literatura Portuguesa – e na escrita, por exemplo, de um Aquilino Ribeiro, autor que Óscar Lopes tanto apreciava. Ou ainda esse trabalho de paixão e erudição – sempre arguta, desbravante e desafiadora, abrindo horizontes insuspeitados – que foi a entrega de Óscar Lopes à leitura da poesia de Eugénio de Andrade, nomeadamente em Uma Espécie de Música (A Poesia de Eugénio de Andrade): Seis ensaios (2001 – o primeiro destes ensaios publicado em 1979, na revista Colóquio/Letras).

Assistir às conferências do autor de Ler e Depois (ouvi-o falar de Aquilino, Torga, Eugénio de Andrade e de tantos outros) ou escutar as palavras por ele proferidas em ocasiões em que foi objecto de homenagens públicas – palavras que não hesitavam, quando necessário, em fazer luz sobre o estado do mundo – constituiu sempre uma aventura. A aventura de seguir o rasto de uma inteligência que a todo o momento convocava elementos das mais inesperadas áreas do saber, a fim de lançar luz sobre as tessituras literárias. Escutar e ler Óscar Lopes era testemunhar um pensamento que se desdobrava e expandia com rigor e coerência, de modo lúcido (palavra cuja remota raiz é a lux, lucis latina) e irradiante. Era testemunhar um sentido que se construía na pista de outro sentido e uma inteligência verbal sem paralelo. Era dar graças por estar vivo e poder pensar com as palavras do outro. E era sentir que certos gestos de partilha e de procura de diálogo não tinham retribuição possível. Para mim, ler hoje Óscar Lopes é reviver todos esses momentos.

Revolucionário: enfim, a palavra incómoda, ou quase, quando se aborda, no aconchego dos salões e dos auditórios académicos, a personalidade e a obra ímpares de Óscar Lopes (neste ponto, nada de diferente do que ocorre ou ocorreu com outras figuras, como José Gomes Ferreira ou Fernando Lopes-Graça, para apenas citar dois exemplos). Quando o registo mais pessoal e íntimo ganha primazia, muitos dos seus discípulos e colegas lembram, e bem, o homem bom e íntegro, o lutador coerente e generoso, atento em permanência ao outro, animado de uma curiosidade ilimitada (reverso da sua simplicidade e da sua natural modéstia). E falam então do homem doce e de olhar vivo, que amava as crianças, os gatos, o chá e as camélias. Do apaixonado por Bach, Mozart, Corelli e pela pintura, por exemplo de Paul Klee. E eis-nos aqui, no terreno da unanimidade. Tudo isto – e não seria pouco – bastaria para dar sentido a uma vida. E ninguém ousará negar a excepcionalidade deste complexo de humanas qualidades. Em que, no entanto, os dons e o talento intrínsecos se viram modelados por um contexto familiar e local (recorde-se a pobre gente de Leça da Palmeira, que Óscar Lopes tantas vezes evocava) e afeiçoados por uma educação, um percurso de socialização, em convivência e aprendizagem com os outros. Importa por isso que aquele discurso dos afectos não sirva – como tantas vezes sucede – para deixar na sombra outras realidades: a do homem que assim é e assim se fez porque, neste ponto, a sua personalidade é comparável à própria literatura enquanto criação humana. E, «na literatura, como em geral na cultura, pode sempre distinguir-se uma ideologia, quer dizer, um conjunto de intenções historicamente determinadas, uma visão geral e discutível da realidade e das aspirações humanas» (faço questão de citar palavras da primeira edição que conheci da História da Literatura Portuguesa, a 6.ª ed., Porto Editora, s.d., p. 9). Ora, a condição de comunista que Óscar Lopes afirmou desde jovem, com a naturalidade, simplicidade e coragem que lhe eram próprias, essa condição que atraiu sobre si a sanha do fascismo obscurantista constitui o fundamento de uma ética, de uma certa maneira de estar na crítica e na investigação, como na vida e na acção política. Porque o seu tempo – não o esqueçamos – é ainda o tempo de Bento de Jesus Caraça, Maria Lamas, Mário Sacramento, Ruy Luís Gomes, José Morgado, Armando de Castro ou Fernando Lopes- Graça. Figuras inesquecíveis do século XX português, a maioria das quais nunca dissociou a cultura científica da cultura humanística e artística. Nem a investigação e a intervenção cultural do exercício de uma cidadania corajosa ao lado daqueles com os quais quiseram e souberam aprender: os trabalhadores e o povo. Também por isso, Óscar Lopes é um exemplo para os dias de hoje, porque sempre se situou nos antípodas de um modo individualista e egocêntrico, imodesto e oportunista de estar na vida e na academia, na crítica, na cultura. Modo este que não poucos dos seus discípulos e confrades das letras lamentavelmente preferiram adoptar.
Génio da fraternidade, da solidariedade, da empatia com o seu semelhante, da capacidade de escutar o outro, Óscar Lopes era alguém que olhava a vida, o futuro, a sua própria presença no mundo como uma aventura sem limites. Por isso, disse algures: “Nós só conhecemos uma fracção mínima da realidade, estamos no início de uma grande aventura cósmica.” Era ainda alguém para quem sempre existiu o tu. E que por isso escreveu, no único poema seu que até hoje veio a lume, numa antologia organizada pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto:

Segunda pessoa

Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça,
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-me na boca,
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos,
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.


Porto, Setembro 2007 / Matosinhos, 22 de Março 2014

Nota
* Estas notas assumem, a seu modo, a forma de um acróstico. Nelas retomo, aliás, um texto de Setembro de 2007 («Como um acróstico: cinco parágrafos sobre Óscar Lopes»), incluído em Óscar Lopes – um homem maior do que o seu tempo (Matosinhos: Câmara Municipal de Matosinhos, 2007, pp. 110-115), obra colectiva editada sob a coordenação de José da Cruz Santos. Esse texto foi objecto aqui duma pequena revisão e actualização e dum curto acrescento.

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