Ontem várias composições do Metro do Porto tiveram de ser retiradas de circulação devido a falhas no sistema de refrigeração/ar condicionado, numa situação que provocou atrasos, desconforto e constrangimentos para milhares de utentes. A informação pública, institucional e atempada aos passageiros continua manifestamente insuficiente, revelando uma preocupante desconsideração por quem depende diariamente deste meio de transporte.
É certo que as temperaturas registadas nos últimos dias são particularmente elevadas. Mas os problemas de funcionamento do Metro do Porto são muito anteriores a este episódio. Há muito que se acumulam queixas de utentes em dias de maior calor, seja porque os sistemas de ar condicionado não funcionam devidamente, seja porque se revelam incapazes de garantir condições aceitáveis em composições frequentemente sobrelotadas.
Este problema soma-se a um quadro mais vasto de degradação da qualidade, da segurança, da fiabilidade e do conforto do serviço. Nos últimos anos, sucederam-se vários episódios que evidenciam fragilidades na operação e manutenção do sistema, entre os quais:
Em Janeiro de 2020, houve um descarrilamento motivado por uma falha nos patins eletromagnéticos, uma peça que auxilia na travagem, já identificada anteriormente;
Em Maio de 2021, um problema na catenária obrigou à interrupção da circulação na Linha B, entre as estações dos Verdes, na Maia, e Modivas Centro, em Vila do Conde;
Em Março de 2024, uma avaria técnica num veículo obrigou ao corte da circulação no tronco comum entre a Senhora da Hora e a Casa da Música;
Em Maio de 2024, uma falha no sistema de sinalização levou à interrupção da circulação em toda a rede;
Em Março de 2025, uma falha de sinalização interrompeu durante várias horas a circulação na Linha Amarela, entre Santo Ovídio e Vila d’Este;
Em Janeiro de 2026, a quebra de um pantógrafo afectou a alimentação eléctrica e condicionou a circulação em vários troços da rede.
Estes episódios não podem ser tratados como casos isolados. Revelam problemas acumulados de manutenção, de investimento, de resposta operacional e de planeamento, com impacto directo na vida dos trabalhadores, estudantes, reformados e demais utentes que todos os dias dependem do Metro do Porto.
A operação e a manutenção do sistema Metro do Porto estão concessionadas à ViaPorto, uma empresa do Grupo Barraqueiro, através de um contrato de subconcessão que vigora até Março de 2027.
Esta opção de entrega da operação e manutenção a privados, com o Estado a assegurar o grande investimento em infraestrutura, é um caminho que a DORP do PCP tem considerado contrário ao interesse público e que não serve a região. Consideramos que deve estar em mãos públicas o que é essencial à mobilidade das populações, designadamente na Área Metropolitana do Porto.
Não se entende que a parte mais significativa do investimento — a infraestrutura, a expansão da rede e a aquisição de material circulante — seja feita pelo Estado, para, depois, a operação e os seus lucros serem entregues a privados, que — para lá de estarem a permitir a degradação do serviço prestado — se servem do investimento público, tirando proveitos que poderiam e deveriam ser públicos e canalizados para o desenvolvimento do projeto e o financiamento de novas linhas.
A DORP do PCP considera que o fim da actual subconcessão deve ser aproveitado para pôr termo à entrega da operação a privados e garantir uma gestão pública do Metro do Porto. Uma gestão pública que assegure melhores condições de segurança e conforto, reforce a oferta, garanta manutenção adequada, responda às necessidades dos utentes e permita planear o desenvolvimento da rede numa visão integrada da mobilidade regional, envolvendo o Governo, a Área Metropolitana do Porto e as autarquias.
O Metro do Porto é essencial à mobilidade das populações, o que é essencial à vida das populações deve estar ao serviço do interesse público e não dos lucros privados.
Porto, 3 de Julho de 2026
O Gabinete de Imprensa da DORP do PCP
