Intervenção de Albano Nunes na inauguração da exposição evocativa do centenário de nascimento de Óscar Lopes

20170420 albanonunesCamaradas e amigos, caro Sergio Lopes, ilustres convidados

A Exposição que hoje inauguramos para assinalar o Centenário de Oscar Lopes, constitui uma homenagem àquele que sendo um dos maiores vultos da inteligência e da cultura portuguesa, se destacou tanto pela sua extraordinária obra literária e científica e pela sua consequente intervenção cívica e militância política, como pela simplicidade e modéstia característica daqueles que verdadeiramente amam os homens e a vida e colocam a luta pela libertação social e humana acima de toda e qualquer consideração de ordem pessoal.

A Biografia de Oscar Lopes com que abre a Exposição, necessáriamente muito sintética, deve ser lida como simples introdução ao seu desenvolvimento nos paineis seguintes, e com a compreensão de que é praticamente impossível, dar uma imagem completa desta personalidade riquissima que ao longo dos seus 96 anos de uma vida - em que, como ele dizia, o modo como se sentia melhor era “como uma espécie de estudante vitalício” - se desdobrou pelos mais variados campos de intervenção cívica, cultural e política, e em que nos diferentes campos e disciplinas que abordou, como no domínio da Linguística e da Crítica literária, deixou uma inconfundível marca de paixão, lucidez e criatividade.

Por detrás de cada um dos quinze paineis que compõem a Exposição, por detrás de cada imagem e de cada citação está todo um mundo sobre a rica personalidade de Oscar Lopes e sobre as circunstâncias – na maior parte da sua vida sob a ditadura fascista – em que desenvolveu a sua intensa actividade como intelectual comunista, que nos desafiam a mergulhar na sua extensa obra cultural e científica (felizmente largamente editada, nomeadamente nas editoras do PCP), e a desvendar o acidentado quadro político nacional e internacional em que se desenvolveu a sua intervenção. Ficaremos então ainda mais cientes da justeza do grande prestígio alcançado por Oscar Lopes e das razões do orgulho dos comunistas portugueses em conta-lo nas suas fileiras.

Oscar Lopes foi um intelectual particularmente sensível aos problemas do seu povo e comprometido com a sua luta. Como a Exposição sublinha o seu contacto com as duríssimas condições de vida da classe piscatória marcou profundamente a sua sensibilidade social e a determinação que acompanhou toda a sua vida na luta ao lado dos trabalhadores e do povo português contra a exploração e a opressão fascista.

É a partir de 1942 que Oscar Lopes começa a ter grande empenho e participação em quase todas as acções levadas a cabo por sucessivas expressões organizadas da oposição anti-fascista, desde o MUNAF, o MUD e o MND dos anos quarenta ao MDP/ CDE que interveio como grande força de unidade democrática à aproximação do 25 de Abril, sem esquecer a sua participação destacada em muitas iniciativas pela libertação dos presos políticos  ou na luta pela paz e contra as guerras coloniais. Ao lado de outros destacados democratas como Virgínia Moura, Ruy Luis Gomes, Armando de Castro e tantos outros, o nome prestigiado e a palavra lúcida e corajosa de Oscar Lopes – em petições, reclamações, manifestos, comícios, manifestações - constituia um forte encorajamento ao desenvolvimento da resistência popular à ditadura de Salazar e Caetano.

A adesão de Oscar Lopes ao Partido Comunista Português em 1945, partido que sempre defendeu de todos os ataques anti-comunistas e ao qual se manteve fiel até ao fim dos seus dias, é a consequência lógica de um percurso de profunda identificação com os interesses e aspirações populares e com os valores da liberdade, da independência nacional, da paz e do socialismo. Ela é também inseparável, como aconteceu nesses tempos com a fina flor da intelectualidade porguesa, do crescimento do movimento operário português que as históricas greves dos anos quarenta representam e - na sequência da reorganização de 1941 - da afirmação do PCP como grande força nacional, vanguarda indiscutível da classe operária e força dirigente da luta anti-fascista. Essa foi também a trajectória de muitos outros intelectuais que, aceitando a classe operária como força social dirigente da luta contra a ditadura terrorista dos monopólios, e reconhecendo na luta popular de massas “o motor da revolução”, fizeram dos intelectuais uma das grandes forças revolucionárias. Já no histórico “Rumo à Vitória” e referindo explicitamente, entre outros, o nome de Oscar Lopes, Álvaro Cunhal afirmava: “O grande movimento democrático dos intelectuais portugueses é um factor de importância primordial para o desenvolvimento geral do movimento anti-fascista até à vitória contra a ditadura e para a realização das tarefas que depois se colocarem ao povo português”.


Dois paineis da Exposição são consagrados à repressão fascista. Justifica-se inteiramente. Na batalha contra o revisionismo histórico, a luta contra o esquecimento ou branqueamento do que foi  o fascismo, é da maior importância. Sobretudo neste tempo em que por essa Europa fora, nessa chamada “Europa dos valores e da solidariedade” mas na verdade uma união dos monopólios e das grandes potências contra os trabalhadores e contra os povos – como estamos a verificar com os constragimentos brutais impostos a Portugal pelo Euro e pela União Europeia e com os quais é absolutamente necessário romper – neste tempo em que a xenofobia, o racismo e o fascismo não só levantam cabeça como começam a instalar-se no próprio poder do Estado, como na Ucrânia, é importanto lembrar a implacavel vigilância, censura, perseguição, repressão, prisão, tortura e assassinato a que estavam sugeitos todos aqueles que se não submetessem e se atrevessem a dizer “não”.

A perseguição de que Oscar Lopes foi vítima – com a prisão, demissão do ensino oficial, a interdição de ensinar literatura, a proibição de assinar com o próprio nome artigos que escrevia para jornais e outras publicações, a frequente recusa à sua saída do país ainda que para simples conferências de indole científica -  são bem reveladoras da natureza reaccionária e obscurantista do fascismo e da sua congénita hostilidade à inteligência, à cultura e à verdade.

Mas Oscar Lopes não só não se deixou condicionar como deu uma grande contribuição à luta pelas liberdades democráticas, apoiou inumeras iniciativas contra a repressão como o manifesto condenando o assassinato de Dias Coelho, empenhou-se na luta pela libertação dos presos políticos tendo sido fundador da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, uma comissão amplamente unitária que desempenhou importante papel no isolamento da ditadura. E no 25 de Abril esteve na primeira linha da grande manifestação popular que, vencendo hesitações e resistências no MFA, conduziu, tal como no caso de Lisboa, à libertação dos presos da cadeia do Porto.  

Ao inaurar esta Exposição a poucos dias de mais um aniversário da nossa Revolução libertadora de Abril de 1974, é oportuno lembrar tudo isto, pois a liberdade é um bem que tem de defender-se todos os dias e em todas as circunstâncias para que não nos seja jamais roubada. Preservar a memória desses negros tempos e transmiti-la às novas gerações é um dever em que os comunistas com os seus aliados na URAP estão profundamente empenhados, nomeadamente com o projecto “Do Heroísmo à Firmeza” - que no edifício onde funcionou a sede da PIDE no Porto assegure a preservação da memória da resistência – e com a sua luta para que o Estado assuma a criação de um Museu de “Memória, Resistência e Luta” na Fortaleza de Peniche .

Em Oscar Lopes é praticamente impossível separar a sua actividade de criador intelectual da sua intervenção cívica e política. A sua profunda identificação com o materialismo dialético e histórico, a sua sólida formação marxista-leninista, a sua aguda inteligência e reconhecida modéstia, a sua convicta condição de militante do PCP, fazem dele um comunista a muitos títulos exemplar, sempre disponível para dar o seu contributo valioso e esclarecido à luta pelas melhores causas. Antes do 25 de Abril desempenhou tarefas destacadas no plano Cultural e do trabalho unitário da oposição democrática. Depois do 25 de Abril exerceu particulares responsabilidades como membro da DORP e do seu Sector Intelectual, foi candidato do PCP à Assembleia da República nas listas da FEPU, APU e CDU tendo exercido a função de deputado, foi eleito na Assembleia Municipal do Porto. Em 1976 foi eleito para o Comité Central onde permaneceu até 1996 enriquecendo com a sua qualificada contribuição o trabalho de direcção do Partido.

Com a revolução Oscar Lopes viu finalmente reconhecido o seu valor académico tendo sido eleito pelos estudantes Director da Facudade de Letras da Universidade do Porto e recebido inúmeros testemunhos de apreço pelo seu extraordinário labor nos múltiplos campos em que desdobrou a sua transbordante actividade - cientista, escritor, ensaísta, tradutor, conferencista - testemunhos que muito justamente são valorizados nesta Exposição.

Nesta breve  apresentação da Exposição sobre a vida e a obra de Oscar Lopes é oportuno assinalar – como na Exposição também se assinala - a coincidência do seu centenário com o Centenário da Revolução de Outubro, acontecimento do maior alcance histórico, de que são inseparaveis as grandes transformações progressistas e revolucionárias do século XX.

Desde logo porque Oscar Lopes reconhece a influência que a Revolução de Outubro teve na sua formação e na opção política e ideológica que o tornou militante do PCP. Depois pelas reflexões e testemunhos que nos deixa sobre a construção do socialismo na União Soviética e o seu papel no desenvolvimento mundial. Refiro-me particularmente ao seu livro “Convite para a URSS”, escrito na sequência da viagem que em 1972, com outros escritores, efectuou à União Soviética. Ele é bem demonstrativo do rigor e do amor à verdade que norteou sempre a vida de Oscar Lopes. Um livro corajosamente editado pela “Inova” em que, numa descrição rigorosa e objectiva da realidade observada, o respeito pelo caminho pioneiro percorrido pelos povos daquele imenso país e a valorização das grandes realizações soviéticas, não é incompatível com pontos de interrogação ou de distanciamento crítico pois que, como afirma, “nunca apetece escamotear aquilo em que deveras se tem esperança” e, porque se trata da abordagem de problemas inerentes à construção da nova sociedade, “os problemas – volto a citar - desta coisa difícil que é uma democracia socialista, autenticamente democrática e autenticamente socialista”.


Camaradas e amigos


Evocar trajetórias de vida como a de Oscar Lopes, sendo um justo tributo de respeito e admiração, é sobretudo uma valorização do seu exemplo de lucidez,  coerência e firmeza de convicções. Lucidez, coerência e firmeza tão necessárias num tempo em que,
    no plano nacional se torna cada vez mais evidente que só com uma alternativa patriótica e de esquerda que rompa com décadas de política de direita será possível recolocar Portugal no caminho do progresso, da justiça social e da independência nacional, e em que
    no plano internacional os tambores da reacção e da guerra soam cada vez mais alto, com a ofensiva do imperialismo a colocar o mundo perante o real perigo de um conflito de catastróficas proporções, como se está a verificar com a escalada belicista dos EUA e seus aliados da NATO e da União Europeia na Siria e noutros pontos do globo.

Neste tempo tão exigente, cheio de potencialidades de progresso social e de avanços libertadores mas também tão perigoso, o exemplo de Oscar Lopes inspira-nos e anima-nos a prosseguir e a intensificar em todas as frentes a luta pelos mesmos valores e ideais a que ele dedicou a sua vida.

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