Significado democrático da obra camoniana

com um desenho de José Rodrigues
(Edição do Sector Intelectual do Porto do PCP)

joserodriguesPara propaganda dos seus enganosos e mesquinhos interesses, as classes exploradoras deformam e manipulam o significado do melhor património nacional e universal da cultura. Mas a verdade da cultura, quando apurada por uma crítica rigorosa e historicamente perspectivada, está sempre com o progresso social, mesmo se se trata de obras que foram produzidas em condições de cerrada exploração social, mesmo se as suas intenções mais profundas tiveram de abrir caminho através de espessos preconceitos ideológicos ao serviço dessa opressão.

A obra de Camões é uma grande glória nacional portuguesa porque, baseando-se na experiência hstórica portuguesa, apresenta um imenso interesse universal e progressista. No entanto, em quatro séculos de sobrevivência dessa obra, os reaccionários de cada época, incluindo a nossa, procuraram sempre emudecer ou mistificar o seu interesse universal e progressita, sem ter mesmo em conta que tão retrógrado empenho apoucava e comprometia a própria glória camoniana e nacional. Os Lusíadas exaltam a maior contribuição colectiva do povo português para o progresso humano: os Descobrimentos, a abertura das relações através dos oceanos, num processo histórico ainda hoje não terminado, processo que tem incluído (e continua a incluir) grandes conflitos, desumanidades colonialistas e imperialistas, mas de que, um dia, surgirá, unida, “uma Terra sem amos,/ a Internacional”.

Os actos inaugurais de um novo ciclo histórico, o do grande comércio intercontinental, cujo significado seria pela primeira vez racionalmente exposto pel`O Capital de Carlos Marx, estão caracterizados n`Os Lusíadas pela seguinte alegoria poética: a viagem de Vasco da Gama, início da ligação marítima regular entre a Europa e a Ásia, é apresentada como uma vitória de simples seres humanos mortais num espaço (o espaço oceânico) até então dominado por divindades, por forças obscuras; o mistério supostamente divino dos grandes mares teria sido, assim, des-divinizado, tal como, hoje, desde a viagem de Gagárine, o espaço cósmico perdeu também a sua ambiguidade teológica, ambiguidade que os próprios crentes hoje esclarecidos deixaram de ligar à palavra “Céu”. E até as consciências religiosas mais avisadas dos nossos dias consideram  que tais progressos trouxeram uma grande depuração às suas crenças, uma depuração tão grande como aquela que consiste em rejeitar a antiga resignação a que uma grande parte da humanidade estivesse, para sempre, condenada à escravatura ou à indigência.

Mas Camões consegue ir ainda mais longe, num tempo e num país então sujeito à mais opressiva Inquisição e Censura cultural de toda a Europa: faz com que o maravilhoso mítico dos deuses gregos e o miraculoso cristão então aceite intervenham no seu maior poema de um modo que, acima de tudo, glorifica “sem mentir, puras verdades”, verdades históricas, maravilhas reais da natureza tropical, da mais moderna arte náutica, de climas e civilizações recém-descobertos e das apetências carnais humanas. Como foi possível a Camões exprimir concepções ideais intimamente progressistas, humanistas, realistas, numa época de que ele próprio n`Os Lusíadas, verbera o obscurantismo, o carreirismo dos magnates, o clericalismo política, a inexperiência governante e fanática, e uma prepotência que se exerce a “despir e roubar o pobre povo” (Canto VIII, estrofes 84-86; c. IX, est. 25-28; c. X, est. 145-6 e 149-150)?

Antes de responder directamente, situemos Camões nas suas relações culturais mais indubitavelmente comprovadas. Entre as suas relações conta-se Garcia de Orta, percursor do espírito científico experimental, cujos ossos foram queimados em auto-de-fé por não ter sido possível queimá-lo vivo – o homem que primeiro revelou à Europa a farmacopeia asiática; conta-se Diogo do Couto, o historiador mais perseguido e criticamente desassombrado da chatinagem da classe dirigente portuguesa no vice-reino indiano; e Magalhães Gândavo, que contemporaneamente a Os Lusíadas e em coincidência com o poema se ergue em “defensão” da língua portuguesa, ameaçada pela castelhanização cultural da Corte (e, em breve, da própria Monarquia portuguesa).

Vejamos agora de modo directo como poderá explicar-se a sobrevivência de uma obra que afinal, na sua força mais íntima, é tão ousada em relação à ideologia dominante do seu tempo. A primeira reflexão que se impõe (mas que a ideologia colonialista e imperialista do nosso tempo se empenha em recalcar ou mistificar) é a seguinte: embora globalmente muito importantes para o progresso humano, os Descobrimentos foram (nas inevitáveis condições do tempo) empreendidos sob a égide de uma aristocracia concentrada em torno de uma monarquia que arvoravam o estandarte fanático da cruzada antimuçulmana e cujas dificuldades crescentes levariam a agravar a exploração (ou esbulho) social e a repressão insquisitorial e censória. Camões não poderia eximir-se a esta contradição histórica condicionadora de toda a cultura portuguesa (mesmo a melhor e mais esclarecida) do seu tempo, e, portanto, dentro de limites muito definidos pelo seu evidente humanismo mais profundo, ele aceita a ideologia cruzadista e o Estado (a ditadura de classe) então vigentes, sem deixar de os pôr em causa na estrutura global d`Os Lusíadas e de denunciar os respectivos malefícios nas suas passagens de amarga referência à realidade nacional sua contemporânea. Insistimos em que o tema mais geral do poema é a des-sacralização dos mistérios (afinal naturais) pelo progresso humano, quaisquer que sejam os riscos e os males inerentes. Dificilmente poderemos saber até que ponto as aparentes transigências de Camões com a política oficial do seu tempo são deliberadamente tácticas; mas o que nós sabemos é que, no fundo, opõe à ideologia então dominante uma ideologia perfeitamente antagónica, e muito comunicativa, de apego aos valores humanistas e terrenos: concepção de uma progresso humano feito em detrimento do mistério ainda tido como divino; admiração das maravilhas reais da natureza directamente observada; glorificação do amor instintivo.

Notemos a este último respeito que, na poesia lírica camoniana, o amor humano aparece como a mais evidente via de acesso ao sentimento do divino, e que, ao privilegiar assim o amor a uma mulher (ou à  Mulher) entre todas as paixões humanas, Camões insere-se, indubitavelmente, numa corrente idealista típica do Renascimento, mas não deixa de exprimir um sentimento humanista mais radical: o de que o destino mais belo e mais insondável de cada ser humano passa por outros seres humanos, que, além da Amada, são os leitores carnais dessa poesia de amor, nascido na Terra por muito que o poeta o idealize; e, por isso, toda a fina dialéctica (unidade na mudança e contradição) que a poesia camoniana apreende no sentimento amoroso – rege, afinal, todos os sentimentos e relações que os seres humanos ligam entre si e com a realidade objectiva: “todo o mundo é composto de mudança”.

Por outro lado, ao meditar sobre a história dos Descobrimentos, com a experiência directa e local que teve de um grande descalabro económico e moral-social, Camões por várias vezes (e nomeadamente pela boca do Velho do Restelo) põe em questão o progresso trazido por esses Descobrimentos (que exalta) relativamente aos objectivos visados pela classe dirigente portuguesa do seu tempo, e mais profundamente ainda, evidencia a relatividade e precariedade de todo o progresso humano na medida em que as suas consequências são, em geral, imprevisíveis e até autodestrutivas para os próprios protagonistas. Tal como, miticamente, Adão (ao provar pela primeira vez o fruto da ciência), Prometeu (ao dar aos homens o fogo físico e o fogo da inteligência) e Ícaro (ao preludiar a aviação e a astronáutica) levantaram novos problemas que os vitimaram porque para eles não encontraram solução imediata – também (descobre Camões) a oligarquia cruzadista dos Descobrimentos não se encontra à altura dos problemas suscitados. Nós hoje sabemos que, de facto, essa oligarquia foi ultrapassada pelo capitalismo, o qual, por seu turno, também levantaria probemas hoje incapaz de resolver.

A oposição de Camões ao obscurantismo fanático do seu tempo não oferece quaisquer dúvidas: a investigação contemporânea está a revelar que os seus textos aparentemente conformistas contêm intenções críticas indirectas ou então foram, provavelmente, sujeitos a entorses ou contrafacções: Os Lusíadas criticam transparentemente o principal aparelho ideológico da Contra-Reforma, a Companhia de Jesus, e de tal modo se opõem à sua ideologia que minimizavam o culto dos santos, nem sequer aludindo a S.Francisco Xavier, já então visto como o símbolo por excelência do apostolado jesuíta no Oriente; há razões para crer que a parte final, ascética, das célebres redondilhas Sôbolos rios que vão, é um acrescento apócrifo, pois não figura no texto hoje mais fidedigno; e quando Aquilino Ribeiro, romanceando, imagina uma cena em que Camões discute palmo a palmo, com o censor do Santo Ofício, as cedência mínimas que possibilitem a publicação de Os Lusíadas, tem pelo menos o mérito de levantar reflexões sobre estes dois factores: primeiro, Camões brinca, deliciadamente, com paradoxos, quando n`Os Lusíadas aparenta justificar, em termos de milagre religioso então aceitável, os episódios mitológicos que melhor comunicam uma sensibilidade bem humanista e terrena; segundo, quatro ou cinco anos depois da morte de Camões, ou seja, em 1584, a segunda edição autorizada do poema elimina todo o conteúdo humanista-progressista a que atrás aludimos. Mais ainda: no século imediato à morte de Camões, publicaram-se vários poemas épicos que procuraram desbancar Os Lusíadas substituindo esse humanismo por alegorias inteiramente conformes com a ideologia dominante. Todavia, foi impossível conter sucessivas reedições, comentários exaltatórios e imitações do grande poeta, porque ele se tornou um dos melhores símbolos da resistência nacional à absorção pelo imenso império filipino que, com a conivência sobretudo incial da classe dirigente portuguesa, procurou integrar e descaracterizar, entre outras pátrias, a pátria portuguesa, tal como a alta burguesia de hoje procura neutralizar toda a possível autodeterminação nacional, nos campos social, económico, político e cultural, dentro do bloco imperialista da NATO e do Mercado Comum Europeu.

Um dos aspectos em que Os Lusíadas se colocam acima da tendência cultural dominante na Corte é o da glorificação da língua portuguesa, de que a obra de Camões se tornou a melhor consagração monumental. Grande parte dos editores, comentadores, apologistas de Camões, ou poetas da sua escola, no tempo dos Filipes, estão em oposição cultural contra a absorção pela “NATO” filipina e contra a ideologia aristocrático-inquisitorial, absolutista, dominante.

Os melhores continuadores actuais da política de prestígio da língua portuguesa são os novos Estados africanos emancipados do colonialismo português, que têm imposto a língua de Camões como língua oficial nos organismos internacionais e que estão empenhados numa campanha de alfabetização sem precedentes. Não tardará muito tempo para que Portugal seja, por ordem de grandeza demográfica, não o segundo, mas o quarto Estado tendo como língua oficial a língua de Camões.

Os poetas (artistas, doutrinários e políticos) que prepararam ou participaram nas diversas vicissitudes através das quais se pretendeu levar a cabo a revolução liberal, encararam e apresentaram Camões como símbolo de uma Pátria de progresso político-social e como vítima da oligarquia aristocrático-inquisitorial: Bocage, Garrett, Soares de Passos, Gomes Leal, etc. A propaganda republicana contra a degenerescência burocrática, caciquista, plutocrática, clericalista-integrista e ditatorial do constitucionalismo monárquico teve o seu grande arranque nas comemorações do III Centenário de Camões, em 1880.

Mas as limitações pequeno-burguesas dos Republicanos levaram-nos a ver Camões, não apenas como imagem de uma Pátria em progresso social e político, mas também como imagem de uma expoliação de povos ultramarinos, em África, e de um idealismo romântico que mascarava a realidade de novas formas de exploração social em desenvolvimento: a proletarização fabril e rural, a concentração capitalista. É esse um dos aspectos ideológicos (entre outros aspectos) em que as limitações da 1ª República continham factores da sua própria destruição.

O fascismo português utilizou a ideologia burguesa colonialista, anti-sindicalista, antioperária, intensificando-a, em nome de uma Nação abstracta cujos interesses se identificavam com os da acelerada acumulação capitalista-monopolista, e em nome de um Império que era apenas um elo de cumplicidades para a integração nas multinacionais imperialistas. O espírito da obra camoniana sofreu a mais completa desfiguração de todos os tempos, tornando enfadonha a leitura escolar de Os Lusíadas, fomentando o divórcio entre o grande poeta e a juventude portuguesa, à força de esterilizar toda a sua força humanista e (no seu tempo) progressista; desestimulando o interesse universal por um grande poema, unilateral e tacanhamente apresentado como belicista-cruzadista; crismando o 10 de Junho com o titulo reaccionário de “Dia da Raça”, em obediência a intuitos puramente colonialistas, numa afronta ao povo português, cujos interesses e melhores ideais eram os de não mais servir de instrumento à dominação de outros povos, quaisquer que sejam as suas raças, até porque, na história de Portugal, isso foi sempre o meio de perpetuar a exploração do próprio povo português pelo capitalismo sem pátria, situação que data do séc. XV mas que hoje atinge a sua crise mais grave, pois nunca, como hoje, as classes reaccionárias se dispuseram a entregar a centros de decisão estrangeira um tão completo controlo sobre toda a vida económica, social e cultural portuguesa.

Não admira, portanto, que o governo da AD, no seu empenho de coarctar todas as possibilidades de diversificação e, por isso, de autodeterminação portuguesa nas relações internacionais, no seu empenho de proletarizar e subordinar todo o País (incluindo pequenos camponeses, industriais, comerciantes e intelectuais), pretenda monopolizar as comemorações camonianas, continuando, a esse respeito, o espírito fascista e anulando o profundo significado que une o verdadeiro património camoniano ao espírito libertador do 25 de Abril.

Mas é significativo que, com natural desespero de outras organizações políticas, o PCP tenha sido o primeiro partido a compreender a justiça de uma homenagem nacional a Camões e a necessidade de, para isso, mobilizar os mais legítimos herdeiros da obra camoniana, os trabalhadores portugueses e os seus companheiros de luta, e já na última Festa do Avante tenha iniciado essas comemorações (o ano de 1579 pode ter sido o ano real da morte do poeta). A importância universal desta homenagem é reconhecida por todo o mundo progressista, incluindo, naturalmente, certos países socialistas, como a URSS, onde as comemorações camonianas estão sendo preparadas desde há bastante tempo. E é de notar que, apesar da desfiguração da obra de Camões em sentido colonialista levada a cabo por republicanos inconsequentes e por falsários fascistas-colonialistas da cultura  - a verdade é que os jovens países africanos cuja língua oficial, ou veicular, é a língua de Camões, têm sabido honrar o verdadeiro espírito camoniano: Luanda conserva uma praça com o nome do Épico, e a Ilha de Moçambique, onde o poeta viveu, é objecto dos mais escrupulosos cuidados de preservação e restauro pelas autoridades de Maputo.

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