Direito a sonhar e a lutar
 

A História tem repetidamente requerido dos intelectuais, como intérpretes particularmente qualificados, o dever, entendido simultaneamente como um direito, de promover reflexões e advertências sobre factos e campanhas ideológicas que colidam com os fundamentos da Democracia, da Cultura e da Civilização.

        O momento actual é um desses exemplos de urgência das comunidades da Criação e do Saber consensualizarem posições sobre o presente quadro global, marcado por um crescendo de ofensivas sociais e de inquietações cívicas, de cruzadas e contra-cruzadas onde o domínio da economia planetária e as religiões mutuamente se encobrem com pretextos e argumentos para gerir os conflitos e contagiar as opiniões públicas. Mas nesta dinâmica de competição entre forças dominantes e alienantes e forças resistentes e emancipadoras – os aparelhos da Comunicação Dominante obviamente espelham e difundem, na generalidade, os discursos do Poder (económico, político, militar, das indústrias editoriais). De modo que, quase sempre, a vítima irrompe como agressor, o risco como vantagem, a mentira como embalagem a descartar na próxima emergência.

        Desde os tempos mais remotos, desde que as fontes documentais, a escrita, as artes decorativas e a tradição oral deixaram memórias e avisos, desde sempre os grupos apropriadores de bens e opressores de povoações revestiram os objectivos de saque, de colonização, de exclusão e extermínio de engenhosas e brutais justificações. A dramatização de um inimigo principal, que recrute militâncias e sobressalte os distraídos é uma arma recorrente, tão contemporânea como paleolítica. É, neste caldo psicológico, que, desde há anos, se tem assistido ao ressurgimento de movimentos e expressões de carácter nazi-fascista, nomeadamente na Europa, perante a complacência de governos e de outras instâncias com responsabilidades constitucionais e democráticas. O espaço de manobra de organizações deste tipo tem propiciado uma subida de tom na linguagem e uma escalada nos objectivos.

        Recentemente, chegou a subir ao Conselho da Europa uma resolução, no sentido da interdição dos partidos comunistas e da sua ideologia, resolução que não encontrou suporte no seio do CE, mas que explicita uma tendência de criminalização e um princípio de ousadia preocupantes para qualquer espírito com sentido da História e dos proclamados Direitos Humanos. Embora a resolução ficasse congelada, não deixa de constituir um mau presságio o simples acto de ser colocada na agenda de uma instituição comunitária pela mão de disfarçados herdeiros do nazi-fascismo, contra o qual milhões de comunistas e outros combatentes da liberdade e da fraternidade lutaram e muitos deram a vida, perderam a profissão e sofreram o exílio, o cárcere e os campos de concentração.

         O alento, explícito e subterrâneo, das forças que desencadearam a maior tragédia da Humanidade não pode ser descurado por encolher de ombros como se tratasse de um efémero surto febril de extremismo europeu. A caça aos comunistas, como é da História, e Brecht legou-nos um excelente poema de tomada de consciência, é o primeiro passo para de, radicalização em radicalização, de perseguição em perseguição, de limpeza em limpeza, a vaga atingir todos os que contrariem a marcha da barbárie. Uma nebulosa totalitária está a procurar instalar-se no cerne das instituições europeias e não é dissociável da redução das garantias democráticas colectivas e individuais alavancadas pelo chamado combate ao terrorismo, que tem servido de capa para todas as arbitrariedades, como, de resto, tem sido denunciado pelas instituições e as personalidades mais atentas e independentes de diversos quadrantes.

        É neste pano de fundo da Globalização do Terror e do Medo que a mão do fanatismo a Ocidente busca aliados para ajustes de contas e para reimplantação de regimes carcerários e inquisitivos, ambicionando atrelar aos seus carros de guerra instituições sufragadas pelos povos para preservarem as tradições humanistas, parte substancial delas conquistadas ao longo dos séculos em solo europeu e integradas no património universal.

       Os intelectuais, os que sabem e querem reconhecer a interligação da Cultura, da Criatividade e da Cidadania, não poderão alhear-se deste novo ciclo propenso à limitação das liberdades associativas, de acção e de expressão. As diferentes abordagens dos processos políticos e das grandes e pequenas problemáticas ideológicas não legitimam o silêncio. Estão em causa valores essenciais da Convivência e do Progresso, da Razão e da Dignidade (individual, nacional e internacional).

        Pelo nosso silêncio não se repetirá a ignomínia. Com a nossa passividade, não passarão. Em nosso nome. Em nome do passado. Em nome do futuro.

                                          

[*] escritor e jornalista